O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, interrompeu nesta terça-feira (4) o envolvimento dos EUA com o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas e manteve a interrupção do financiamento para a agência de ajuda humanitária da ONU para refugiados palestinos, a UNRWA.
A medida coincide com uma visita do primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, a Washington, também nesta terça. O premiê critica há muito tempo a UNRWA, acusando a agência de incitação anti-Israel e sua equipe de estar “envolvida em atividades terroristas contra Israel”.
O decreto assinado nesta terça também pretende “revisar o envolvimento americano na Unesco“, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, “que também demonstrou um viés antiamericano“, afirmou o assessor Will Scharf.
Antes da oficialização da medida, um porta-voz da UNRWA se recusou a comentar um decreto que ainda não tinha sido emitido e descreveu a situação financeira da agência como “muito, muito ruim”.
Durante o primeiro mandato de Trump, de 2017 a 2021, ele também cortou o financiamento da agência, questionando seu valor, solicitando reformas não especificadas, e dizendo que os palestinos precisavam concordar em renovar as negociações de paz com Israel.
O primeiro governo Trump também abandonou o Conselho de Direitos Humanos no meio do mandato devido ao que chamou de preconceito crônico contra Israel e falta de reforma interna. Os EUA voltaram ao órgão sob o ex-presidente democrata Joe Biden, quando foram reeleitos à posição de membro com direito a voto, não apenas observadores, e cumpriram um mandato de 2022-2024.
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O enviado de Biden ao conselho já havia pedido a Trump que permanecesse ativo, em parte para conter, segundo ele, a influência perigosa da China. Com a medida do republicano, no entanto, os EUA não terão mais envolvimento com o conselho.
O embaixador de Israel na ONU, Danny Danon, elogiou na segunda-feira as ações —até então não oficializadas— de Trump, acusando o Conselho de Direitos Humanos de “promover agressivamente o antissemitismo extremo“.
“A UNRWA perdeu há muito tempo seu status de organização humanitária independente e se tornou uma autoridade terrorista controlada pelo Hamas sob o disfarce de uma agência humanitária”, afirmou.
O comissário-geral da UNRWA, Philippe Lazzarini, disse na semana passada que a agência tem sido alvo de uma “feroz campanha de desinformação” para “retratar a agência como uma organização terrorista“.
Os EUA já foram o maior doador da UNRWA —fornecendo de US$ 300 milhões a US$ 400 milhões por ano—, mas Biden suspendeu o financiamento em janeiro de 2024 depois que Israel acusou funcionários da UNRWA de participar do ataque do Hamas de 7 de outubro de 2023, que reacendeu a guerra em Gaza.
À época, o Congresso dos EUA suspendeu formalmente as contribuições até pelo menos março de 2025. A UNRWA fornece assistência, serviços de saúde e educação a milhões de palestinos em Gaza, na Cisjordânia, incluindo Jerusalém Oriental, Síria, Líbano e Jordânia.
As Nações Unidas disseram que nove funcionários da UNRWA podem ter se envolvido no ataque do Hamas e foram demitidos. Um comandante do grupo terrorista no Líbano —morto em setembro por Israel— também foi descoberto tendo um emprego na agência. A ONU prometeu investigar todas as acusações feitas e repetidamente pediu evidências a Israel, que ela diz não terem sido fornecidas.
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Uma proibição israelense entrou em vigor em 30 de janeiro, impedindo a UNRWA de operar em seu território ou se comunicar com autoridades israelenses. A agência disse que as operações em Gaza e na Cisjordânia também sofrerão com as novas medidas.
Após assinar os decretos, Trump afirmou, a despeito das evidências, que os palestinos adorariam sair da Faixa de Gaza e viver em outro lugar se tivessem a opção. “Acho que ficariam encantados”, disse. O presidente ainda afirmou que os palestinos não têm alternativa a não ser deixar o território e que ele gostaria de ver os países vizinhos Jordânia e Egito acolherem os deslocados.
A afirmação repete a lógica que apresentou há pouco mais de uma semana, quando sugeriu a retirada de boa parte da população palestina da Faixa de Gaza para outros países árabes, a fim de “limpar a coisa toda” após mais de um ano de destruição causada pela guerra.
A faixa tem cerca de 2,2 milhões de habitantes, o que dá a escala da tal limpeza proposta por Trump, que já ganhou a qualificação de “limpeza étnica” ao ser comentada por um importante político palestino, Mustafa Barghouti, à agência árabe Maan.
A ideia ecoa, para os palestinos, a nakba (catástrofe, em árabe), o termo dado à expulsão de árabes pelos judeus durante a formação conflituosa do Estado de Israel, em 1948.
Tel Aviv rejeita a noção, lembrando que foi atacada por seus vizinhos quando a ONU determinou a partilha da antiga Palestina britânica, mas o fato é que milhões deixaram suas casas no processo.